terça-feira, novembro 24, 2009

Cigarette Countdown #8

E você me olhou, e me olhou bem.
Um pouco de ar roubou o espaço entre nós duas. Refrescou o suor da noite quente, da faísca do atrito dos corpos incendiários. Refrescou, mas não diminuiu o estrago.
Você soltou meu quadril por um instante, passou as costas da mão no meu rosto, afastou meu cabelo ensopado de te querer, aproximou a boca no meu ouvido e fiquei esperando a rajada da sua voz. E veio, e entrou, e me arrebatou: "A espera é só sua." - ela disse - "Mas não precisa ter pressa!"
Não quero ter pressa, quero descobrir cada gosto seu, cada cheiro, quero ver sua pele saltar da carne quando te toco. Mas você se esconde de alguma forma. São seu cabelos nos olhos, é sua respiração entrecortada, nunca terminando o que insinua, é a sua voz que me remete à algum beco escuro, sem saída?
Nada disso! Retomo. Eu te levo pra onde eu consiga só você. Vem comigo?

Acho uma porta, te pego no braço.
Acho uma chave, te puxo pra dentro.
Acho um escuro macio, vazio, silêncio.

Pressa? Pra que a pressa? Repito incansavelmente na minha mente inquieta. Pra que o sufoco do tempo?

Sento na cama, te sinto apenas, não te vejo. Alcanço a sua mão, os dedos finos, quero um dedo apenas. Temo estar indo rápido demais. Quero lento. Que gosto terá? Gosto de medo, de vontade, de querer agora? Ou depois? Abro a boca devagar, sinto primeiro o cheiro, depois a língua toca a ponta, e todo o dedo, e você treme, como eu.
Lento?
Devagar?
Sem pressa?
Você não pensa mais nisso, nem eu. Arranco o pouco que cobria seu colo, e tenho, sem ver, o contorno perfeito dos ombros, costas, peitos, cintura.
Luz! Vejo o mínimo do que antes estava na minha boca. Seu dedo. Outros dois dedos e um cigarro no meio. Luz no rosto, fogo nos lábios. Te vejo um pouco. Te vejo um quase. Fumaça. Arde seu sorriso mordendo os lábios.
Aproveito a pausa pra te observar, e te querer ainda mais.
Mais um cigarro e novo começo.


Pra que a pressa?
Pra que o tempo?
Quero te amanhecer.

FIM DO OITAVO CIGARRO

quinta-feira, outubro 08, 2009

Cigarette Countdown #7

De volta do meu devaneio, confirmo: Não tenho controle, nem quero ter.

Você está na minha frente, tão real como tudo que eu invento.

Estamos tão perto de conseguir o que queremos, seus olhos fechados, os meus bem abertos, pra te memorizar, pra te desfragmentar em milhares de cores, milhares de luzes.

E passo a mão nos seus cabelos, seguro sua nuca. Mais um beijo, mais todos os beijos que eu posso te dar.

Colo na parede, me mesclo com o vermelho da cortina e te puxo pro fogo comigo.

Sua mão me toca, fundo. Atinge meus ossos, eles tremem. Seu dedo desce pelo meu ombro, peito, barriga. A mão inteira agora, me segura pelo quadril, desenha minha curva até as costas. A mão inteira, eu sinto todo o desenho dela, todas as linhas, todos os seus póros grudados nos meus. Seus dedos fecham, pegando o máximo de mim. É só a palma, mas sou eu inteira nas suas mãos.

O caminho ainda vai pra baixo, mais pra baixo... até onde iremos agora? Pra onde você leva o pouco ar que consigo respirar quando estou com você?

Suas duas mãos no meu quadril, me puxam com força pra você. Sua rapidez é impressionante! Atinge o bolso da calça, entra sem pedir licença, vasculha e acha... Puxa o isqueiro. É fogo que você quer? Vamos começar com esse. Vasculho em você também. Acho o maço, tiro dois, acende o meu. Acendo o seu.

Olha pra mim, mas olha bem e responde: Por quanto tempo mais terei que esperar?


FIM DO SÉTIMO CIGARRO


terça-feira, agosto 18, 2009

Cigarette Countdown #6 - Pausa para devaneios


Abrir
procurar por aquilo que desejo
...
Trazer pra perto
Abrir mais
...
Deslizar o dedo
pegar aquilo que me instiga
...
Intransponível no início
Não querer desistir!
...
Conseguir tocar
Macio
...
Ter em minhas mãos
Passeando entre meus dedos
...
Sentir o cheiro
Levar até a boca
...
Procurar pelo fogo
o que me faz arder
...
Conseguir queimar
de primeira
...
Sentir o gosto
e o cheiro, e o fogo
...
Na língua
Narina, garganta
...
Respirar tudo isso
arder por dentro
...
Fechar os olhos
e sentir o tremor
...
O meu corpo tomado
disso, do cheiro, do gosto, do fogo
...
Ficar tonta com a primeira
Ficar entregue com a segunda
...
Trançar as pernas com a primeira
Afrouxar as pernas com a segunda
...
Não conseguir respirar
Não conseguir se conter
...
Segurar o máximo dentro de mim
E sentir que vai explodir, ou voar
...
Querer mais de mim
Querer mais de tudo
...
Saber que está quase acabando
E sonhar em começar tudo de novo
...
Estar a um milésimo de segundo do fim
E entender o que eu tenho
...
Nada na verdade
Apenas
...
Isso entre meus dedos
O fogo do cigarro
...
Isso entre minhas pernas
O fogo de você

FIM DO SEXTO CIGARRO

terça-feira, julho 21, 2009

Cigarette Countdown #5

Eu tremo, inteira, quando sinto sua mão de leve no meu rosto enquanto eu te beijo. Eu vou ao céu e volto, a tempo de ainda perceber quão real você é. E ouvir a música! Essa música que você cria com suas risadas perto do meu ouvido.

Olho ao meu redor, tanta gente... Quero te levar pra longe daqui. Seus olhos também passeam, conversam com outros olhares e quando cruzam os meus, percebemos que já não há mais o que fazer.

Estamos prontas!

Meus sentidos estão aguçados, como numa caçada. Pupilas dilatadas, pêlos eriçados, músculos com extrema prontidão!

Ainda não...

Te pegam pela mão, te fazem conhecer pessoas, te contam longas histórias, te fazem contar históras, muito mais longas. E eu espero, teu vinho espera, eu, tua, espero.

Mais um cigarro solitário, no canto, no escuro, no íntimo da espera, no limiar do meu desejo. Fecho os olhos, levo o cigarro perto do ouvido. Digo seu nome enquanto escuto a brasa queimar, e ouço sua risada, pegando fogo em mim. Digo seu nome mais uma vez e tenho a impressão que vou sorrir eternamente.

Ao abrir o olho, te tenho ainda na moldura. Menos gente, menos foco, mais nós duas. Levo teu vinho e me levo até você.
Você vem.
Você perto.
Você inteira.
E é só isso que interessa.
Largo o pobre cigarro solitário no chão.
Esmago o final da minha espera.

E estamos prontas!

FIM DO QUINTO CIGARRO



quinta-feira, junho 18, 2009

Cigarette Countdown #4


Desviando de pessoas, fumaça, cabelos, copos... Isso é só um apartamento, mas pareço perdida numa cidade estranha, a sua procura. Tremo, muito! Frio não é. Minhas extremidades estão ardendo, meu rosto escaldado, fervendo com a lembrança quente do seu sorriso.

Passo por um, dois, três corpos. Não é o seu. Quatro, cinco, seis costas, nada me chama. Sete, oito, nove cigarros em mãos totalmente frias, secas.

Mas... Uma fumaça ao longe... Um cigarro... Sozinho, esperando alguém no cinzeiro. Será que você esqueceu lá? Corro pra pegá-lo... Como pode esquecer? Atropelo gente... Como pode? Pisoteio copos... Como? Cacos de vidro no caminho... Brasas crepitando sob meus pés... Fogo... Incêndio... Você ardendo! Te achei! Sua boca dizendo... "Você achou! Achei que já tinha apagado". Nunca. Nunca apaga.

Me aposso do cigarro abandonado, beijo seu ombro descuidado, pego na sua mão totalmente largada no vazio de uns segundos da minha ausência, e devolvo seu fogo estrategicamente entre seus dedos. Seu cigarro, que tive o prazer de ter por apenas uma tragada nessa noite.

E eu quero mais.

Ver você devorar o que restou da brasa que eu te dei é delicioso. Só ver... Você engolindo fogo, e seus olhos em chama, pra mim, incendiando a noite.

Mas eu quero mais.

E eu peço mais.

E ganho mais.

Da sua boca, o último segundo de vida do seu cigarro. E devoro como se fosse o último gosto seu.


FIM DO QUARTO CIGARRO





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