Se eu te envolvo, a manhã te liberta.
Outro dia - ela diz. E então penso em dias longos, sua pele queimando sob o sol de um setembro. Seus cabelos desorientados fugindo pela janela de um carro.
Um outro dia - ela repete - uma tarde dessas... e poderíamos ser mais. E então penso em tardes frias de julho e cigarros quentes. Penso em cafés com você. Penso em vielas e avenidas ouvindo nossas risadas num passeio roubado.
Mas, noites... - ela ri, é onde somos melhores. E então penso nesta noite apenas. Como única noite possível. Os cigarros são mais quentes, as risadas mais intensas, sua pele queima sem sol, seus cabelos me orientam pelas suas vielas e avenidas.
Se eu fecho meus olhos,e sonhando me recuso a deixar seu colo, a sua vida sem mim me desperta. Levanto-me a contra-gosto, ainda com um gosto de querer ficar mais. Recolho roupas e sombras minhas. Decepcionante é o vestir-me.
Pela primeira vez temos um muro entre nós duas. Construído por nossos dias seguintes. Você apologeticamente sentada na beirada da cama, trançando os laços do seu coturno. Eu, largadamente sentada no chão, te olhando e decifrando palavras de um plano remoto de uma próxima vez.
Enquanto ouço suas expectativas para nosso próximo encontro, acendo um cigarro, não mais olhando para você, mas para mim, para dentro, para um espaço gigantesco que está se abrindo: é o lugar onde espero.
Uma última tragada.
Longa...
levanto e sigo.
A fumaça.
Ainda no peito
Você levanta e me segue.
A porta do quarto ao nosso alcance.
É a nossa saída.
Não deixo sair...
Nós duas olhamos.
... a fumaça presa...
Nós duas paramos.
Inação.
Não me atrevo mexer meus pés.
E é você quem derrete o momento congelado. Me segura na cintura, pede que eu deixe a fumaça sair. Eu faço, como se isso definisse o que está por vir. E então, você me presenteia com um beijo tao longo como a última tragada. Esse beijo, não deixarei sair de mim.
FIM DO DÉCIMO SÉTIMO CIGARRO






