Tão suave foi ao seu meio sorriso. Sua boca me aquecendo o ombro, pedindo que eu guardasse seu gosto mais um pouco, em mim. Ainda guardo, guardei a noite inteira.
Quantas vezes você amanheceu assim? Ela quis saber, levantando preguiçosa seu corpo de rotina.
Tão áspera foi a sua fala. Sua garganta me ardendo a mente, implorando que eu evitasse o envolvimento, em nós. Ainda estou envolvida. Estive envolvida a noite inteira.
Assim, ao lado de alguém que... Ela realmente quis saber, acendendo desleixada seu cigarro de despedida.
E é exatamente aqui que eu chego ao meu limite velho conhecido. É aqui que tudo endurece em mim. É quando a dúvida do que sentir, por onde ir, me atormenta a tal ponto que só me resta acender alguns poucos cigarros e esquecer. E sempre foi doloridamente fácil esquecer... aquela que conheci na época do colégio... Aquela que encontrei sem querer no banheiro de um cinema. Acendi uns dois cigarros talvez e esqueci aquela do banco de trás do carro de um amigo, e também não demorou para esquecer entre tragadas aquela que não sai da minha mente agora... e esqueci talvez, num próximo maço, quando encontrei você numa festa e te quis como a única, como a que me libertaria do medo e da dúvida de ser de alguém.
Essa sou eu.
A que foge.
A que disfarça o medo com um sorriso certeiro.
A que desenha uma desculpa torta...
...e foge.
E depois, como agora, acende um cigarro e lembra...
outro cigarro e sofre...
só mais um e...
esquece?
E você? Me consome em tragadas e me esquece também? E você? Me aviva e mata em uma noite e volta para casa, onde alguém te espera? Não pergunto, não estrago seu despertar, mas entendo: somos iguais, estamos ambas em fuga.
Sorrio com meu lábio-mentira que verdadeiramente ainda te quer, e com um insignificante cigarro aceso no canto da boca te ajudei com o feixo da sua noite perfeita e das suas roupas.
Tocar em seu cabelos, e ainda querer.
Dói um pouco.
Sentir o cheiro dos seus ombros e, sentar ao seu lado dividindo fumaças.
Corrói um pouco.
Procurar em você tudo que foi meu por instantes, e num adormecer, tudo seu novamente... devolvido onde estava.
Só mais um pouco...
Um raio de luz invade o quarto e encurta meu tempo com você. A displicência desse cigarrro mal queimado se torna de repente tudo que tenho pra te dar. Te roubo o que parece o último instante da nossa noite-sonho, o último folêgo do meu desejo. Deito minha cabeça em seu colo e digo: Vem comigo. Só mais um dia. Uma lua. Alguns cigarros...
E essa sou eu, sempre te envolvendo no escuro da minha cela-coração.
FIM DO DÉCIMO SEXTO CIGARRO






